12 de set de 2012

Um Conto De Um Fiel Pastor de Congregação

Atenção:  O protagonista é fictício, mas a história acontece todos os dias em alguma igreja brasileira. Qualquer semelhança com a sua igreja é...mera coincidência?

Eram 18:00h. Meu olhar estava fixo no relógio. Não que estivesse com preguiça para continuar a minha tarefa, mas porque durante a madrugada, pouco antes de sair para o trabalho, enquanto lia a Bíblia, um texto sagrado parecia saltar diante de mim e imediatamente senti o Senhor me revelar algo que eu deveria compartilhar com a Igreja na qual sirvo como Pastor. 
Então, apesar de não ter tido tempo para um momento especial com aquele texto e para comunhão em oração com o meu Senhor, ansiava para "bater o cartão" e chegar em casa e, como de costume, ir à igreja sem jantar. Você deve estar perguntando porque eu bato cartão, se sou Pastor. Pois é meu amigo, tenho 3 filhos, pago aluguel e minha igreja não tem recursos suficientes para me sustentar! Ela fica na periferia, há anos que estamos em fase de construção do templo. A gente faz o que chamamos de cantina, aquela merendinha vendida na porta do templo em construção, para ajudar com as despesas do empreendimento.
Bem, como eu dizia, fiz o que era de costume. Saí correndo do trabalho, peguei aquele "abençoado" engarrafamento e...não deu tempo para passar em casa.Fiquei triste, pois tenho 3 filhos como já disse e dois estão na fase da adolescência.  Queria muito que eles me ouvissem pregar naquela noite. Estava me sentindo motivado pelo Espírito Santo. 
A pregação foi uma benção! No final do culto, muita gente veio falar comigo. Fiquei por ali, aconselhando uns, dando risada com outros, orientando alguns obreiros com relação à construção e as atividades daquela semana. Fechamos o templo e fui caminhando com alguns até determinado local perto de suas casas. Apesar da alegria em meu coração pelo resultado da pregação daquela noite, senti um pesar ao chegar em casa. A luz da nossa casa estava apagada. Deduzi que minha esposa e filhos estavam já repousando. Entrei evitando o barulho. Sentei na ponta da nossa cama num quarto apertado e mal ventilado. Percebi quando ela olhou por cima do ombro e perguntou-me: "Como foi o culto?" Respondi: "Benção!", para evitar que a mantivesse acordada depois de um dia de muitas batalhas. Fui ao quarto das crianças. Eles estavam dormindo a mais ou menos meia hora. Lembrei-me que naquela semana quase não os vi. Porque?
Bem, a igreja que tomo conta vem passando por muitas crises em decorrência de maus obreiros que por lá passaram. Além disso, nossa instituição teve uma crise em sua liderança que deixaram marcas, feridas, desilusões. Algumas ovelhas já nem estão mais no aprisco. Uma disputa insana por parte de quem deveria promover a paz, dividiu nossa instituição em toda nossa cidade. Fui chamado pelo meu Pastor para assumir esta congregação em um dos setores de nossa denominação. O tempo para a família estava escasso, apesar de entender que precisava dar um jeito para estar perto deles!
Apesar de não ter sido treinado para este trabalho, faço com alegria. Em nossa igreja não há recursos, pois só um pequeno percentual das arrecadações ficam de fato conosco. Resultado: falta-nos dinheiro para construir e para investir na Escola Bíblica Dominical, no evangelismo, em missões, na ação social, etc. 
Mas, no dia depois daquele culto abençoado, recebi uma ligação para comparecer urgente em nosso templo central para uma reunião do nosso ministério. Nos últimos anos, essas ligações se tornaram constantes. Como era dia de minha folga, fui. Parecia que estava em outro mundo, os números em reais anunciados naquela reunião eram absurdos! Enquanto necessitávamos de coisas elementares, triviais para o funcionamento do templo e a continuidade de nossas atividades, aqueles homens davam-nos relatórios de gastos astronômicos com empreendimentos muito longe da realidade de nossa humilde congregação. 
Vi alguém vociferar e exigir fidelidade de todos os líderes de congregações. Os vi pedir para que suspendessem todos os pagamentos da nossa humilde igreja. A falta de ordem e direção era nítida. Homens com formação acadêmica se debatendo com erros grotescos, confusos e sem saber o que fazer diante de erros que o mais simples administrador de qualquer empreendimento jamais cometeria.
Vi a "Senhora Ambição" passar por entre suas cadeiras e falar-lhes aos ouvidos. O "Senhor Desejo pelo Poder", também cochichou-lhes algo e bem no centro daquela balbúrdia o "Senhor Negócio com o Rebanho" dava gargalhadas. Mas, bem no canto da sala alguém chorava. Aproximei-me e, preocupado, perguntei-lhe: "Que há meu irmão?" Só depois eu percebi que ele se vestia diferente de todos nós e falava de forma incomum. Ele levantou a cabeça, olhou para todos e enquanto olhava, fez-me perceber o que acontecia ali. Depois disse-me: "Porque você acha que choro?" Olhei de novo para todos tentando achar uma resposta e, ao voltar-me para ele, não estava mais lá.
Levantei a cabeça da cadeira em minha frente assustado. Teria sido real? Olhei em volta tentando achar aquele homem de olhar intrigante. Percebi que todos ainda estavam discutindo em torno da famosa crise institucional. Fiz uma oração silenciosa e evitei deixar rolar a lágrima que sufocava-me. Era domingo e perguntei-me: "Que pregarei hoje?" Precisava deixar tudo aquilo para traz e, se aquele homem era Jesus ou o Espírito Santo, então eu não deveria voltar mais àquele lugar e tentar cumprir a missão a mim confiada pelo Senhor e pelo meu Pastor.
À noite, comportei-me como sempre. Alegre e motivador. Agora estava mais feliz pois minha esposa e filhos estavam lá. Olhei para eles e disse para mim mesmo: "Aqui está minha missão, minha família, minha igreja. Irei aonde me mandares Senhor e tentarei fazer com que não chores..."

4 de set de 2012

Seja Cínico, Como Jesus...

Bem, antes que você me execre, vamos às definições: cínico, obviamente, vem de cinismo: movimento filosófico fundado por Antístenes de Atenas (444-365 a.C.) que ensinava que, uma vida de felicidade e simples, deveria ter um certo desapego pelos bens materiais e questionar sempre o convencional. A palavra vem do grego "kunikós": aquilo que concerne ao cachorro. Logo, a idéia era que, assim como o cachorro vive desprendido, sem pudores sociais, assim deveria ser a vida de quem realmente quisesse ser feliz.
Na verdade o cinismo pregava o desprezo pelas convenções morais e sociais. O cínico era um crítico do modo de vida da sociedade que gostava de maquiar suas angústias e frustrações e viver hipocritamente. 
Com o passar do tem, a palavra deixou de significar desprezo pelas convenções (atitude que reprova), para significar transgressão dessas convenções.
Segundo o professor Diogo Xavier, em seu artigo "Etimologia-cínico-origem da palavra", a palavra cínico passou a "adjetivar o sujeito sarcástico, que não se preocupa com os sentimentos dos outros". O filósofo brasileiro Mário Sérgio Cortella diz que, Jesus conhecia bem a filosofia que, na Grécia fora difundida por Diógenes e, em seus dias, homens como João Batista, era visto pela sociedade como um seguidor do cinismo. 
Sob o ponto de vista da origem da palavra cínico, podemos dizer que Jesus fora o maior deles em sua época. Denunciou a hipocrisia da religiosidade dos seus dias (Mt. 15:7s; 22:18; 23:29, etc.). Ensinou sobre o desapego aos bens materiais (Lc. 12:33), foi indiferente ao comportamento social convencionado. Por exemplo: curou e fez o bem no sábado (Mt. 12:1-12). Os fariseus negavam-se a ajudar o próximo num dia de sábado sob o pretexto de que, no sábado, não se deve fazer nenhuma obra! Jesus se relacionava com os páreas da sociedade (Mc. 2:16, 17), deixava os cheirosos e bem vestidos nas reuniões solenes e era capaz de ficar entre os "inválidos" próximo ao tanque de Betesda! (Jo. 5:1s).
Mas é bom lembrar que o cinismo de Jesus não originava-se em Diógenes ou Antístenes, mas do coração de um Pai amoroso que quer que sejamos autênticos e que não vivamos de acordo com convenções que ferem princípios de sua Santa Palavra (Mc. 7:9-13).
Seja cínico, portanto...  

Garoto de 11 Anos é ordenado Pastor nos EUA.