11 de jan de 2013

Uma Geração Incapaz de Interpretar

Em simples palavras, interpretar é: concluir, deduzir a partir de dados coletados. Para que esses dados sejam coletados, é necessário análise e compreensão. Durante a análise, levanta-se elementos que favoreçam à compreensão do que se está estudando. A análise pode ser chamada também de período da pesquisa. De forma bem simples, pesquisa, por sua vez, é procurar respostas para indagações propostas. Ela é parte elementar da ciência e põe à prova os pressupostos; seu objetivo é descobrir respostas para problemas, mediante o emprego de procedimentos científicos.
Por outro lado, o avanço tecnológico e da internet, possibilitou que a informação chegasse até nós pronta, sem a necessidade da pesquisa. O internauta só tem o trabalho de pesquisar o assunto. Todavia, este assunto já vem construído, na argumentação e nas fontes. O pesquisador internauta, geralmente, não põe à prova, nem a argumentação, nem a fonte. Não faz sua própria pesquisa. Pra quê? Não já está tudo pronto?
Está aí o motivo pelo qual nossa geração tem dificuldades em interpretar. Nossa geração está aprendendo a repetir o que outros pensam e concluem e nossos professores aceitam isto.
Segundo pesquisas, a galera que se dá mal no exame do ENEM, por exemplo, é aquela incapaz de fazer a relação entre dados e fatos e fazer tal relação é saber interpretar. O problema é que o mesmo sistema que exige tal proeza é o mesmo que, sem critérios, aprovam nossos filhos e os deixam sem condições de, se quer, estar na próxima série escolar. Eles estão crescendo sem capacidade de interpretar textos e o pior, a vida! Eles não sabem o que é coletar dados, acompanhar processos, inquirir fatos.
Qualquer interpretação depende de pesquisa. A pesquisa possibilita a coletagem de dados e esses, por sua vez, possibilitam o processo de compreensão.
A professora Belmira Bueno, da Faculdade de Educação da USP, diz que uma das modalidades de pesquisa é a "qualitativa", aquela que "permite que o pesquisador vá desenhando o seu percurso de pesquisa, à medida que as questões vão aparecendo com mais clareza e redirecionando a indagação (aquela que deu origem à pesquisa) inicial". É óbvio que durante este processo o aluno ou o pesquisador, cresce intelectualmente e adquire a capacidade de interpretar. Uma vez coletadas as informações, respondidas as  perguntas, a mente do aluno cria mecanismos capazes de interpretar!
Agora, para iniciar qualquer pesquisa, o pesquisador deve fazer uma revisão bibliográfica, ir atrás de bibliotecas, de livros. Fazer um levantamento do tipo de literatura que se tornará sua fonte de pesquisa. Perguntinha básica: Quem, principalmente na rede de ensino público, quer fazer isso? Quais professores fomentam tal prática?
Se o novo sistema educacional exige a capacidade de interpretar, este mesmo sistema não deveria fomentar a pesquisa desde o ensino fundamental?
Pois bem, na igreja não é diferente. Estamos criando uma geração incapaz de interpretar a Palavra de Deus e a vida, porque nós pastores, professores, educadores cristãos não fomentamos em nosso meio o estudo, a pesquisa das Escrituras. Damos a eles a nossa interpretação (embora a Bíblia não tenha interpretação particular - 2 Pe. 1:20). O fato é que fazemos nossos esboços, nossa exegese (pesquisa) e fazemos nossa hermenêutica, simplesmente para atender a nossa necessidade de pregar e não os instigamos a descobrir, fazer sua própria pesquisa. Além disso, não os provocamos, não os indagamos, porque estamos muito preocupados em responder!
Tal como o sistema secular de educação, a igreja está criando uma geração burra teologicamente. Uma geração que não indaga, que não confronta, não pesquisa e não inquire (At. 17:11).
Uma geração que se torna dia após dia, presa fácil de ensinos heréticos e de filosofias antibíblicas. Que se encanta com os discursos da pós modernidade e ignora a relevância das Escrituras como fonte de sabedoria.
Esta geração tem uma mente preguiçosa, porque tudo lhe está sendo dado de forma pronta. É a geração fast food, do drive thru. É só estender a mão, pagar e pegar o que deseja o coração. Nós líderes estamos criando este sistema que empobrece o rebanho e lhe deixa sem discernimento. Uma discussão séria precisa começar entre pastores e líderes que se preocupam com a gritante decadência de valores e princípios vistos a olhos nus em nosso meio. A falta de capacidade de interpretar a vida e o próprio estilo de vida que nos  foi proposto nos Evangelhos, precedido pelo desinteresse pela inquirição e pesquisa das Escrituras, está formando esta geração diferente e, em muitos casos, afastada de Deus.

Um comentário:

Unknown disse...

Paz

Ah, e muitos líderes estão ajudando a isso, pois quando alguém pergunta ou questiona são tidos como rebeldes/perturbadores e são perseguidos, etc. Foi assim nos tempos dos profetas, foi assim na Inquisição, é assim nos dias atuais, ainda que de uma maneira diferente.

"Seja cada crente um livre ser pensante, dependente do Espírito e respeitador das autoridades constituídas."


Seu irmão em Cristo,

Carlos Gomes