8 de mar de 2013

Por Uma Missiologia Mais Bíblica

Por Raimundo Campos

A Missiologia moderna é antropológica, sociológica e pouco bíblica. Missiologia aqui será um termo usado para todo preparo para o campo missionário, envolve todo o processo de seleção de candidatos,  a metodologia e a filosofia. Para Escobar, a missiologia "é uma abordagem interdisciplinar para a compreensão do trabalho missionário, examinando seus fatos sob a perspectiva das ciências bíblicas, teologia, história e ciências sociais." Este conceito de Samuel Escobar é na verdade um clamor contra uma missiologia embasada em ciências humanas mais que em conceitos bíblicos.
Samuel Escobar é peruano e um dos mais conhecidos e respeitados missiólogos evangélicos latino-americanos. Para ele, o preparo de missionários e missiólogos precisa ter como base: "convicções bíblicas, experiência de vida, consciência histórica e preocupação pastoral". Vamos tratar desses quatro pilares da missiologia segundo Escobar  :
Convicções Bíblicas e experiência de vida: "Porque com grande veemência, convencia publicamente os judeus, mostrando pelas Escrituras que Jesus era o Cristo." At. 18:28.
Convicção é a certeza adquirida por fatos ou razões. As convicções de alguém só podem sofrer abalos, se algo muito superior surgir a partir de uma experiência incomparável, sim, porque as convicções sempre resultam de experiências incomuns e inigualáveis. 
As convicções são produzidas por experiências e o Evangelho é capaz de transformar as convicções mais profundas de qualquer ser humano através de uma experiência incomum! O conhecimento das Escrituras é parte intrínseca desta experiência. Uma vez convicto daquilo que se crê, o missionário ou missiólogo adquire pelas Escrituras e pela experiência vivenciada no processo de conversão, a capacidade para convencer quem lhe ouve, que Jesus é o Cristo e, portanto, a única esperança para suas vidas efêmeras.
Mas a experiência aqui tratada não diz respeito somente àquela vivenciada na conversão, mas também àquelas que se processam no discipulado, no crescimento espiritual diário, no amadurecimento da fé, das ideologias. Diz respeito também ao conhecimento adquirido através de estudos de uma teologia bíblica e cristocêntrica. Paulo foi capaz de convencer os judeus acerca da messianidade de Cristo por causa deste tipo de convicção e deste processo experiencial.
Choque cultural é o que mais se discute na academia missiológica, como se fosse a experiência mais responsável pelas frustrações de obreiros transculturais. Todavia, essas academias são as mesmas que teimam em formar missionários sem fortes convicções bíblicas e experiência de conversão verdadeira e de vida. Ignoram que uma vez no campo, o missionário precisará de profundas convicções bíblicas, de ter em mente uma teologia que lhe assegure sua fé, sua esperança e que, portanto, lhe inspire a vencer os obstáculos do campo e que ainda lhe garantirá responder com convicção acerca da esperança de sua fé (1 Pe. 3:15).
Imagine um missionário num contexto cultural muçulmano, tendo que lhe dar diariamente com os cinco pilares da fé muçulmana ou numa aldeia budista onde a filosofia de vida confronta os fundamentos da fé cristã! Apenas conhecimento antropológico, social e filosófico não garantirá a sobrevivência de seu ministério, de sua missão.
Consciência histórica: de forma simples, consciência histórica tem haver com a compreensão da dimensão da própria história, sem a qual o homem não poderia compreender quem ele é ou o que foi.
Bem, para dissertar acerca deste tema, teríamos que ouvir Raymond Aron, Hans-Georg Gadamer, Marc Ferro, entre outros. Mas Agnes Heller entende que a consciência histórica é composta de:
 "vários estágios que vão desde o momento em que um dado grupo cria normas de convivência, substituindo com elas os instintos - em que o sistema mítico  do grupo legitima-o e significa, para ele, a origem do universo, e em que o grupo é identificado à humanidade – até o momento em que num dado grupo, após se ter tomado consciência de que a humanidade transcende-o, concebe-se o mundo como histórico (no sentido de construção humana, desconectada de quaisquer fatores metafísicos) relativizando a própria cultura a partir de outras, no tempo e no espaço, até a consciência de que a história não marcha indelevelmente para o progresso, que a racionalidade e a ciência não dão conta da evolução humana e de que o futuro é missão de cada um e de todos."
Logo, a consciência histórica na formação missiológica tem haver com o candidato a missionário e a cultura a que se propões evangelizar. É preciso conhecer esse "sistema mítico" do grupo cultural, alvo do evangelismo do candidato a missões. Por certo, este tema levar-nos-á à Contextualização do Evangelho nas Culturas.
Preocupação Pastoral: Para Paul Washer, "a grande necessidade no campo missionário é de uma teologia sistemática e de pregação expositiva cristocêntrica" e, isso só pode acontecer quando existe uma profunda preocupação pastoral. Quando o Apóstolo Paulo chegou em Éfeso e encontrou cristãos sem discipulado, não só os instruiu acerca do batismo em águas e do Espírito Santo, mas ficou com eles, ensinando na Sinagoga e na "escola de um certo Tirano". O texto de Atos 19 diz que "isso durou por espaço de dois anos". A preocupação de Paulo não era só missionária, aquela que visa fundar trabalhos e liderar grandes movimentos de evangelização, mas também pastoral, aquela que vai além do evangelismo, que se preocupa com a manutenção da fé dos novos discípulos. A preocupação pastoral na vida do missionário tem haver com um discipulado eficaz, capaz de formar comunidades cristãs bem estribadas na Palavra de Deus. Washer diz que o verdadeiro missionário deve estar "preparado para abrir a boca e instruir as pessoas acerca de Deus". Um missionário com uma profunda preocupação pastoral, está preparado para gastar sua vida no campo e não apenas liderar campanhas evangelísticas, abrir uma igreja e deixá-la à sorte.
Bem, uma missiologia bíblica tem que levar em consideração esses pilares. O conhecimento e convicção bíblica, a experiência de vida, a consciência histórica e a preocupação pastoral, devem preceder ao conhecimento meramente antropológico e sociológico que se tornaram as maiores preocupações de algumas escolas missiológicas.

Nenhum comentário: