8 de mar de 2013

Uma Mulher, Um Conflito e Uma Atitude

Por Raimundo Campos
Para o Dia Internacional da Mulher


"Então, Ana se levantou, depois que comeram e beberam em Siló; e Eli, Sacerdote, estava assentado numa cadeira, junto a um pilar do templo do Senhor. Ela, pois, com amargura de alma, orou ao Senhor, e chorou abundantemente" 1 Samuel 1:9, 10
Não era normal uma mulher no templo cumprindo suas devoções. Geralmente, elas nem participavam de atividades litúrgicas, muito menos dedicavam-se a momentos a sós no templo a não ser que estivessem com o marido. Esse é provavelmente um dos motivos pelo qual Eli achava difícil Ana estar em juízo perfeito. Um outro, é que o tipo de celebração feito por Elcana diante do Sacerdote do Senhor uma noites antes,  envolvia bebida e, talvez, aquela mulher solitária tivesse passado um pouco da conta!
O fato é que Ana não estava ali por nenhum dos motivos especulados aqui. Ana convivia com um conflito que lhe havia reservado certas tribulações em sua vida.
O versículo 6 do primeiro capítulo de 1 Samuel diz que o Senhor lhe cerrara a madre! Isto era, sem dúvida, uma maldição para qualquer mulher judia. A mulher no contexto judaico era criada para os afazeres domésticos, a obediência ao marido e para lhe garantir a posteridade. Não dar filhos ao marido, era deixar-lhe sem herdeiro, quem desse continuidade ao seu nome!
Além disso, Ana tinha que conviver com a ideia de presenciar seu marido alegrando-se com cada filho que nascia de sua outra esposa. O versículo 4 deste texto diz que Penina, a outra esposa, tinha filhos e filhas! O dia do sacrifício para Ana deveria ser um tormento! Imagine ela observando seu esposo compartilhando da refeição do sacrifício com aqueles garotos, filhos de sua rival.
Mas não era só isso: Ana era provocada pela outra esposa de Elcana. A Bíblia não entra em detalhes, mas podemos imaginar as discussões, as disputas, os olhares provocativos, as palavras ofensivas.
Tudo isto se constituía em pressões para Ana. Esterilidade, provocações, anseios, sentimento de inferioridade em relação à outra esposa, mágoa, angústia, por certo eram sentimentos que ocupavam o coração daquela que foi, mais tarde, mãe do fundador da monarquia em Israel.
Mas é necessário dizer que Ana ainda convivia com a incompreensão do marido. Ele a amava e achava que seu amor era suficiente para que ela se sentisse realizada (1 Sm. 1:8). Mas Ana queria algo mais. Ela também queria se sentir realizada como mãe e não apenas mulher de um marido bondoso. 
É com este coração que Ana comparece diante do Senhor no templo. Gosto quando o texto diz que "Ana se levantou". Neste caso, não é só sair de uma posição física para outra, mas também indica decisão. É como se Ana quisesse dizer: "Chega, de hoje não passa. Vou fugir ao modelo, vou quebrar o protocolo, vou fazer eu mesmo minha petição, vou deixar de lado os rituais, vou extravasar, vou gritar e tirar do peito esta angústia e pedir aquilo que tanto almejo!".
Poderíamos fazer um extenso discurso sobre a oração de Ana, todavia, quero destacar duas coisas: um choro amargo e uma petição ou uma alma amarga, atribulada e um pedido. Ana se derramou diante do Senhor, foi ela mesma, sem rituais, sem sacrifícios, só uma alma anelante por ajuda do Eterno.
Mas aquele não era um pedido para outros ouvirem. Era o grito sufocado em um coração que só balbuciava. O texto sagrado diz que "só se moviam os seus lábios". O pedido de Ana foi:
"Senhor dos Exércitos! Se benignamente atentares para a aflição da tua serva, e de mim te lembrares, e da tua serva não te esqueceres, mas à tua serva deres um filho homem, ao Senhor o darei todos os dias dias da sua vida, e sobre a sua cabeça não passara  navalha". 1 Sm 1:11
Depois de ser consolada pelas palavras do Sacerdote que compreendeu seu estado de amargura, o texto destaca três coisas que aconteceram com Ana.
Primeiro: "a mulher foi o seu caminho..." É como se ela se reencontrasse. Ela seguiu sua vida. Aqueles instantes falando com Deus, chorando suas desilusões e mágoas lhe deu forças para retomar "seu caminho". Era uma mulher levantando sua cabeça, pronta para voltar para a mesma casa onde era provocada e desprezada.
Segundo: "comeu". No versículo 7 Ana está tão depressiva que não consegue comer. Agora não. Ela havia sido renovada pelo mesmo que havia ouvido suas orações. Ela resolveu cuidar de si, sobreviver, deixar para trás seu estado depressivo, voltar á rotina saudavelmente.
Terceiro: "o seu semblante já não era triste". Não senhor! A tristeza agora fazia parte da história de uma mulher que ainda não havia se prostrado diante do Senhor. Ela não era mais aquela mulher. Um fardo havia sido deixado naquele templo enquanto orava.
Por fim, Ana recomeça sua vida, se dá ao esposo em relação sexual e o Eterno se lembra dela!
O que se segue é uma história de cumprimento das promessas feitas em tempo de angústia. Ana por certo não sabia, mas Samuel, fruto de suas orações, se tornou mais tarde num dos maiores líderes espirituais da história de Israel. Ele se tornou juiz, profeta e sacerdote. Foi responsável pela separação do primeiro rei de seu povo, Saul,  e do rei mais amado de Israel, Davi. 
Esta é a história de uma mulher que deixou uma lição extraordinária de fé e confiança.
Dedico este artigo a todas as mulheres em seu dia. Feliz Dia Internacional da Mulher.

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