15 de out de 2013

Precisamos de Hermenêutica Urgente!

Por Raimundo Campos



A Reforma Protestante foi na verdade, uma reforma da maneira de ver a Bíblia, entendê-la. Na Reforma, o que passa a contar em relação àquilo que se entendia dos textos sagrados, não se passava mais pelo crivo da igreja, do clero. Agora, qualquer pessoa, pelo uso dos meios ordinários de interpretação poderia chegar ao conhecimento do conteúdo do que ensina a Bíblia.
A Hermenêutica era uma ciência usada apenas pelos pré reformadores como: André da Abadia de São Vítor, Nicolau de Lira, João Wicliff, entre outros. Lutero, fortemente influenciado por esses homens, principalmente por Nicolau de Lira, além de liderar o movimento que deu aos fiéis de sua época a oportunidade de lançar um olhar diferente sobre as Escrituras, liderou também a construção de uma hermenêutica que partia da forma alegorizada de ver a Bíblia para a forma histórico gramatical, que tinha como pressuposto analisá-la sob o ponto de vista da interpretação literal do texto.
Para os reformadores, a hermenêutica da era medieval era puramente alegórica, o que fazia com que os estudiosos da Bíblia ficassem distantes do que a Escritura queria realmente dizer. Para eles, era preciso uma hermenêutica que partisse do que chamavam de modo mais simples de ver a Bíblia, aquele pretendido pelos autores humanos, o sentido literal do texto.
Lutero ficou conhecido como o interprete da renascença européia e sua gana maior era viver de acordo com o modelo de Agostinho, pastor de Hipona e grande fomentador da harmonia dos conceitos bíblicos com alguns dos filosóficos. Por isso, Lutero dedicou-se a uma investigação da obra filosófica grega e ao estudo do Novo Testamento em sua língua original. Sua obra, abriu portas para a compreensão da Escritura de uma forma crítica o que levou aos que dedicavam suas vidas à compreensão da Palavra de Deus  a chegarem perto do que os autores humanos da Bíblia quiseram realmente dizer!
Lutero não ignorou o fato de que determinados textos eram alegóricos, mas partiu do pressuposto de que os textos sagrados deveriam ser interpretados primeiro a partir da mensagem literal dele. Em seu Segundo Comentário sobre a Carta aos Gálatas, por exemplo, ele faz uso da alegoria para explicar suas conclusões exegéticas.
Todavia, Lutero destacou-se mais pela sua coragem e piedade do que pelo seu brilhantismo intelectual, embora tivesse deixado um legado no que foi chamado pelos exegetas de resgate moderno do método histórico-gramatical. 
O grande exegeta da reforma mesmo foi Calvino, por fazer um uso mais desenvolvido do método histórico-gramatical de interpretação e por ser versado nos escritos dos pais latinos e na filosofia grega, conhecedor das línguas originais (grego e hebraico), além de ter uma facilidade de diálogo com os pensadores de sua época.
Abaixo, transcrevo artigo publicado no site Monergismo que aponta seis princípios da Hermenêutica de Calvino. Escolhi este texto porque, de forma sucinta, descreve o que gostaria de destacar na Hermenêutica de Calvino que penso fazer falta em nossos púlpitos, em nossa forma de ver a Bíblia:

Princípios da Hermenêutica de Calvino

1.      Renúncia à alegorese e enfática denúncia da mesma como sendo uma arma de deturpação do sentido da Escritura

Ao desenvolver sua teologia Calvino fazia menção à interpretações alegóricas desenvolvidas pela igreja papista durante os séculos difíceis da Idade Média, e mesmo por pais da igreja que desenvolveram teses insustentáveis exegético e teologicamente. Nestas referências ele denunciava de forma quase virulenta a alegorese, forma ilegítima de buscar o real sentido da Palavra revelada. Não raro, Calvino chamava tais interpretações de "ficções", e com isto ele pretendia expressar que a origem de tais interpretações era a imaginação do intérprete e não a revelação do Divino.
Desta prática apologética de Calvino, podemos apreender que para a adequada utilização do método histórico-gramatical, o intérprete deve deixar o texto falar por si só. Deve, na medida do possível, impedir que sua própria inventiva projete sobre o texto significados e afirmações que nele não subjazem.

2.      Ênfase no sentido literal do texto

Calvino defende que cada texto tem um, e somente um, sentido, que é aquele pretendido pelo autor humano. Este sentido pode ser percebido pela leitura simples da Escritura. A forma mais comum de entendermos o que pretendia dizer o autor sacro, é buscar no sentido literal da passagem.
Vale, porém, lembrar que Calvino não era como ele mesmo designava, um "literalista", aqueles que desprovido de bom senso, criam que todo texto deva ser interpretado de forma literal. Ele esclarecia aos seus leitores que há passagens que são nitidamente figurativas e outras simbólicas, estas devem ser interpretadas como demonstra ser a intenção do autor. Ele é categórico ao afirmar que a tipologia do texto pode ser percebida mesmo por indoutos em uma rápida leitura da passagem, e que aqueles ignoram isso o fazem devido à distorções de seus próprios espíritos perversos.

3.      Dependência da operação do Espírito Santo para a correta interpretação da Bíblia

Na ótica calvinista, é tríplice a ação do Espírito em relação à Escritura. Em primeiro lugar, Ele inspirou os autores sacros, colocando em seus corações aquilo que pretendia fosse registrado para a posteridade e, principalmente, impedindo que ao registrar tais verdades, fossem inseridas máculas ou desvios provenientes da falibilidade do instrumento (o homem); em segundo lugar, ele preservou e preserva através dos séculos pura a sua Palavra para benefício e instrução da igreja, impedindo de forma miraculosa, que a verdade fosse distorcida ou omitida; e em terceiro lugar, Ele age hoje sobre os seus ministros, iluminando suas mentes para que compreendam corretamente o significado e as várias aplicabilidades dos textos, para a benção e edificação do povo de Deus.
Desta forma, é impossível, pensava Calvino, e nós cremos ainda hoje, fazer adequada interpretação e pregação da Palavra, sem a dependência absoluta do Espírito Santo de Deus.

4.      Valorização do estudo das línguas originais para melhor 4. compreensão do ensino sagrado

Conquanto Calvino cresse na intervenção e auxílio do Espírito para a correta interpretação da Sacra Letra, ele jamais desprezou ou minimizou a importância do contínuo e cuidadoso estudo das línguas originais. Como já afirmei acima, o reformador de Genebra era versado em grego, hebraico e aramaico, além de possuir total domínio do latim e do francês, pelo menos.
Lendo as Institutas e seus comentários de livros de ambos os Testamentos, encontramos Calvino não apenas se referindo às palavras na língua original em que o texto foi escrito, mas também descendo a detalhes como o significado da conjugação de um verbo ou do modo de um dado substantivo. Tais conhecimentos são úteis e importantes para uma benfadada prática hermenêutica, chegando mesmo a Confissão de Fé de Westminster consagrá-los como "supremo tribunal" para que sejam dirimidas dúvidas.

5.      Tipologia equilibrada, evitando impor a textos veterotestamentários simbolismos que eles não suportam

Na teologia há que se fazer uso de tipologias, que consiste em perceber que determinadas realidades do Antigo ou do Novo Testamento podem, corretamente, ser apropriadas como representações de verdades sublimes. Lutero no afã de demonstrar que Cristo está presente em toda a Bíblia, de Gêneses à Apocalipse, por vezes fez temerárias apropriações. Quase que impondo significados cristológicos a textos onde, provavelmente, não era esta a intenção Espírito e do autor (que são sempre a mesma). Tal prática não pode ser encontrada na obra de Calvino, destarte o delicado momento histórico em que ele viveu.
É digno de nota o fato de que para Calvino toda a Escritura aponta para Cristo, mas ele não está tipologicamente figurado em toda passagem da Escritura, como pretenderam alguns medievais e, em menor medida, Lutero.

6.      A melhor arma para interpretar a Bíblia é a própria Bíblia

Este tem sido considerado o princípio áureo da hermenêutica reformada. Ele reza que os textos menos claros da Escritura sejam interpretados à luz dos textos mais claros. Esta é a prática generalizada de Calvino em todos os seus escritos. Sua primeira opção é sempre conferir textos paralelos que tratam do mesmo assunto.
Um exemplo disso, aparece quando comentando no quarto livro a dimensão herética que tomara a prática de ungir os enfermos, degenerando na unção in extremis (extrema unção), ele chama à memória o texto de Mc. 6:13, onde está registrado que os apóstolos na ministração de cura aos enfermos de diferentes aldeias e povoados por onde passaram em cumprimento de uma comissão dada pelo próprio Senhor Jesus, fizeram uso da unção com óleo, lembrando ainda que ao curar um cego Jesus fez lodo com saliva e areia, ungiu os olhos enfermos, curando-o. Findando por relembrar que no Antigo assim como no Novo Testamento o óleo simboliza o Espírito Santo.
Desta forma, o grande mestre de Genebra, mesmo entendendo que a prática da extrema unção era prejudicial e promovida, freqüentemente, pelo misticismo pernicioso, ele não desvirtua o sentido simples dos textos em questão, antes os analisa com transparência, porém alertando para o mau uso que vinha sendo dado à esta prática no meio da igreja romanista.

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