18 de jan de 2013

O Recomeço Vicioso de Todo Ano


Por Raimundo Campos

Recomeço é uma das palavras mais usadas no final ou início de ano. Na verdade a palavra soa bonita, filosófica, inteligente. Falar em recomeço dá a impressão de disponibilidade para mudanças. A palavra é explorada aqui na rede, na TV, nas revistas e chega deixar a impressão que coisas novas e legais estão às portas; tão às portas, que parecem ser palpáveis. Desta forma alimentamos sonhos, esperanças, deixamos o coração bater mais forte, liberamos a emoção, nos deixamos levar pelas inspirações e...ficamos viciados neste círculo de esperança que se renova entre dezembro e janeiro.
Acontece que, com a mesma força com que aspiramos pelo novo, pelo recomeço, nos acomodamos em nossas limitações e perdemos a inspiração, deixamos os sonhos voarem e diminuímos o ritmo da emoção à medida que os meses vão passando e nos deparamos no meio do ano, envolvidos com todas as frustrações que o real nos oferece.
Chegamos velozmente ao fundo do poço do real, das experiências do cotidiano que nos apontam para uma experiência vivida nos anos anteriores. No meio do ano somos pessimistas, realistas, vivemos por vista, usamos a razão, a lógica. Não damos passos emotivos e somos capazes de argumentar contra o sonho, a esperança, a fé. Mas no final do ano não. Não mesmo. Estamos viciados, escravos deste espírito que nos ataca no mesmo período dos últimos doze meses de nossa vida incrédula. 
Desta forma, imaginamos que Deus também tem final de ano, que Ele também marca em seu calendário o dia 31 e fica ansioso por ouvir nossas promessas, embora saibamos que Ele sabe que não cumpriremos a maioria delas! Não meu caro leitor, Deus não vive ou existe como nós! Não há finais e começos de ano no existir do Eterno. Ele não espera que sejamos mais fiéis no final ou início de cada ano, mas todos os minutos de nossa efêmera existência!
Investimos nossos ânimos com toda força no início do ano, pra deixar de tê-lo seis meses depois. Nossa alegria é notada e, às vezes, só porque nos queimamos no sol de janeiro em uma ilha e voltamos expondo nossa pele bronzeada, já achamos que nos transformamos em outra pessoa, que estamos prontos para enfrentar o dia a dia com seus desafios, disputas, deslealdades, traições, decepções, dívidas.
Essa falsa impressão que passamos para o mundo, logo, logo é denunciada ao depararmo-nos com as provações. Logo, nosso espírito de paz fica perturbado, nossa bondade é bombardeada pelo stress, nosso sorriso dá lugar ao ar compenetrado das preocupações cotidianas. 
Gritamos, xingamos, somos intolerantes o ano todo, para no final do ano inalarmos a fumaça viciante da esperança de final e começo de ano. Aí começa tudo de novo. Quanta hipocrisia!
Em Mateus 6: 16-18, Jesus nos ensina a sermos nós mesmos, a não transformar nossa prática de fé em troféu diante dos homens. Ele ensina-nos a ser piedosos à vista de Deus e não dos homens. 
Em 1 Tessalonicenses 5:18, o Apóstolo Paulo orienta-nos a rendermos graças em todas as ocasiões de nossa vida, todas, não somente no final ou início de ano.
Em Lucas 1:75, Zacarias, em seu cântico, lembra que o Criador nos envia sua salvação para que o sirvamos sem medo, "em santidade e justiça perante Ele, todos os dias da nossa vida". 
Portanto, é preciso recomeçar sim, no entanto, mais importante é manter acesa nossas esperanças, nossa fé, nossas promessas ao Pai, mesmo quando desafiados, estimulados a desistir e agir de forma a contradizermo-nos.
Não sejamos escravos do circulo vicioso de todo ano de um recomeço que logo tem fim.


11 de jan de 2013

Uma Geração Incapaz de Interpretar

Em simples palavras, interpretar é: concluir, deduzir a partir de dados coletados. Para que esses dados sejam coletados, é necessário análise e compreensão. Durante a análise, levanta-se elementos que favoreçam à compreensão do que se está estudando. A análise pode ser chamada também de período da pesquisa. De forma bem simples, pesquisa, por sua vez, é procurar respostas para indagações propostas. Ela é parte elementar da ciência e põe à prova os pressupostos; seu objetivo é descobrir respostas para problemas, mediante o emprego de procedimentos científicos.
Por outro lado, o avanço tecnológico e da internet, possibilitou que a informação chegasse até nós pronta, sem a necessidade da pesquisa. O internauta só tem o trabalho de pesquisar o assunto. Todavia, este assunto já vem construído, na argumentação e nas fontes. O pesquisador internauta, geralmente, não põe à prova, nem a argumentação, nem a fonte. Não faz sua própria pesquisa. Pra quê? Não já está tudo pronto?
Está aí o motivo pelo qual nossa geração tem dificuldades em interpretar. Nossa geração está aprendendo a repetir o que outros pensam e concluem e nossos professores aceitam isto.
Segundo pesquisas, a galera que se dá mal no exame do ENEM, por exemplo, é aquela incapaz de fazer a relação entre dados e fatos e fazer tal relação é saber interpretar. O problema é que o mesmo sistema que exige tal proeza é o mesmo que, sem critérios, aprovam nossos filhos e os deixam sem condições de, se quer, estar na próxima série escolar. Eles estão crescendo sem capacidade de interpretar textos e o pior, a vida! Eles não sabem o que é coletar dados, acompanhar processos, inquirir fatos.
Qualquer interpretação depende de pesquisa. A pesquisa possibilita a coletagem de dados e esses, por sua vez, possibilitam o processo de compreensão.
A professora Belmira Bueno, da Faculdade de Educação da USP, diz que uma das modalidades de pesquisa é a "qualitativa", aquela que "permite que o pesquisador vá desenhando o seu percurso de pesquisa, à medida que as questões vão aparecendo com mais clareza e redirecionando a indagação (aquela que deu origem à pesquisa) inicial". É óbvio que durante este processo o aluno ou o pesquisador, cresce intelectualmente e adquire a capacidade de interpretar. Uma vez coletadas as informações, respondidas as  perguntas, a mente do aluno cria mecanismos capazes de interpretar!
Agora, para iniciar qualquer pesquisa, o pesquisador deve fazer uma revisão bibliográfica, ir atrás de bibliotecas, de livros. Fazer um levantamento do tipo de literatura que se tornará sua fonte de pesquisa. Perguntinha básica: Quem, principalmente na rede de ensino público, quer fazer isso? Quais professores fomentam tal prática?
Se o novo sistema educacional exige a capacidade de interpretar, este mesmo sistema não deveria fomentar a pesquisa desde o ensino fundamental?
Pois bem, na igreja não é diferente. Estamos criando uma geração incapaz de interpretar a Palavra de Deus e a vida, porque nós pastores, professores, educadores cristãos não fomentamos em nosso meio o estudo, a pesquisa das Escrituras. Damos a eles a nossa interpretação (embora a Bíblia não tenha interpretação particular - 2 Pe. 1:20). O fato é que fazemos nossos esboços, nossa exegese (pesquisa) e fazemos nossa hermenêutica, simplesmente para atender a nossa necessidade de pregar e não os instigamos a descobrir, fazer sua própria pesquisa. Além disso, não os provocamos, não os indagamos, porque estamos muito preocupados em responder!
Tal como o sistema secular de educação, a igreja está criando uma geração burra teologicamente. Uma geração que não indaga, que não confronta, não pesquisa e não inquire (At. 17:11).
Uma geração que se torna dia após dia, presa fácil de ensinos heréticos e de filosofias antibíblicas. Que se encanta com os discursos da pós modernidade e ignora a relevância das Escrituras como fonte de sabedoria.
Esta geração tem uma mente preguiçosa, porque tudo lhe está sendo dado de forma pronta. É a geração fast food, do drive thru. É só estender a mão, pagar e pegar o que deseja o coração. Nós líderes estamos criando este sistema que empobrece o rebanho e lhe deixa sem discernimento. Uma discussão séria precisa começar entre pastores e líderes que se preocupam com a gritante decadência de valores e princípios vistos a olhos nus em nosso meio. A falta de capacidade de interpretar a vida e o próprio estilo de vida que nos  foi proposto nos Evangelhos, precedido pelo desinteresse pela inquirição e pesquisa das Escrituras, está formando esta geração diferente e, em muitos casos, afastada de Deus.

4 de jan de 2013

Erros que não Devemos Continuar Cometendo em 2013 na Obra de Deus

Quem trabalha na obra de Deus sabe que a lida de um obreiro é uma verdadeira escola. A gente aprende todo dia, com todas as situações, circunstancias e pessoas. Principalmente aqueles que são constantemente mudados de congregação, como é o caso dos Pastores e Presbíteros. É gente de todo tipo, lugares e costumes diversos, emoções e desgostos sem contas. Todos, desde o porteiro e zelador do templo até aquele que está responsável pelo rebanho, sempre está aprendendo e vivenciando novas experiências diariamente. 
E neste labor interessante, a gente termina cometendo erros que parecem ser pequenos mas que refletem significativamente no Reino de Deus.
Um deles é promover a cargos importantes, gente sem vocação e despreparada. Colocar, por exemplo, alguém em frente de uma classe de EBD, só porque ele é alguém influente e não pode ficar sem ocupação, é o cúmulo do absurdo! Este erro implica em:
  • Considerar os alunos idiotas;
  • Desconsiderar o valor do cargo;
  • Desconsiderar o valor do ensino da Palavra;
  • Massagear o ego do promovido em detrimento do bem estar da classe;
  • É não ter capacidade para gerenciar e aquilatar valores.
Outro erro gravíssimo é manter em uma igreja ou cargo, gente que a gente sabe que não produz e ainda destrói o que outros produziram. O pensamento ridículo é que a pessoa pode se sentir ofendida! Este erro implica em:
  • No caso de quem toma conta de igreja: matar o rebanho para manter o pastor. A Bíblia diz o contrário: o pastor deve perder a vida pelo bem estar das ovelhas (Jo. 10:11);
  • Destruir o que outros suaram para construir com oração e trabalho bem feito;
  • Considerar um e desprezar o sentimento e estado espiritual dos demais;
  • Esquecer que é mais fácil tentar curar um do que curar 10 ou mais.
Existem erros que são culturais e históricos e que precisam ser repensados. Aqui vai:
Primeiro: Harpa Cristã. Ou inovamos o momento de louvor com músicas que falam ao coração da igreja de hoje ou dinamizamos o uso da Harpa Cristã. É fato: na maioria das igrejas Assembléias de Deus que tenho ido em Salvador e outras cidades, o momento do louvor da Harpa é o pior! A maioria não trazem a harpa e mesmo os que trazem, não cantam. A minha pergunta é: As letras estão contextualizadas? Sua linguagem é compreensível? O hino 17 da harpa cristã, por exemplo, tem que ser cantado com um dicionário da língua portuguesa do lado, caso contrário nosso louvor será apenas de palavras. Um trechinho aqui pra gente pensar:

Do mar o bramido, da brisa o LANGOR
Da ave o CARPIDO de doce amor
Me falam sentidos, acordes dos céus...

Quem na congregação sabe o que é langor e carpido? Pois bem. Se você vai ao dicionário, langor é o mesmo que languidez. E que benção é languidez minha gente? Aí você vai e encontra o significado de languidez: definhamento, indolência, moleza, prostração. Quer dizer: da brisa a moleza, a suavidade. E essa palavrinha do "nosso cotidiano" (ironia) chamada "carpido"? Carpido é: carpir, barulho, pranto. Logo, o que o autor quis dizer foi: Da ave o barulho de doce amor. Poético, lindo, mas incógnito para a maioria. 
O louvor, portanto, se torna infrutífero, pesado, inteligível.
O fato é que a congregação canta desmotivada, enfadada com hinos centenários, e que não motivam mais a congregação. Gosto dos hinos da harpa, acredito que foram inspirados; mas, foram tão inspirados quanto são muitos da atualidade e que sofrem preconceito por parte dos dirigentes de igrejas e de cultos. Sacralizamos o hinos da Harpa e damos a eles o mesmo valor que damos à Bíblia. Para muitos, deixar de cantar um hino da Harpa, é como deixar de ler e pregar a Bíblia.
Por insistirmos neste erro, esquecemos que vivemos tempos diferentes, temos aí uma nova geração, um novo estilo musical, estilo este que faz a cabeça da juventude da maioria dos crentes. Mas, por causa da mísera tradição, preferimos continuar com cultos que já não dizem nada e não levam mais o povo a estado de adoração!
Nossos cultos não são mais interessantes, nosso louvor não fala mais e a gente segue ignorando tudo isso e nos comportamos como alienados e sorrimos com a miséria litúrgica em nossos cultos!
Não podemos continuar cometendo este erro e não podemos criticar nossos jovens e adolescentes por causa dos shows gospel. O que precisamos é ter humildade para entender que hinos centenários, com letras lexicalmente inalcançáveis não falam a esta geração. Mas, se vamos continuar cantando a Harpa, que seja com inteligência. Que o vocabulário seja revisto e que a forma de entoar tais hinos seja dinâmica, atraente. E isso começa com um bom ministro ou ministra do louvor, com acompanhamento instrumental bem feito.
esquecemos que o momento do louvor, que geralmente é feito no início do culto, é o momento que determinará que tipo de culto teremos. É nesta hora que os corações são preparados para que virá depois.
Outro erro que não devemos cometer é em relação á liderança. Não podemos nos dar ao luxo de manter no pastorado das congregações e sedes, obreiros que já deram atestado de incapacidade eclesiástica. Precisamos renovar nossa liderança, precisamos treinar novos líderes. Identificar aqueles que são verdadeiramente chamados e que tem caráter, idoneidade e potencial para realizar o trabalho.
Não adiantará desejar que em 2013 Deus faça isso ou aquilo, se quem precisa fazer somos nós.
CONTINUA...