5 de mar de 2014

As cinzas do Carnaval


A ilusão é bem montada. Os risos dos artistas, dos entrevistadores, apresentadores e correspondentes das grandes emissoras, quer anunciar a alegria, como se a melhor coisa do mundo estivesse acontecendo. Parece existir um complô no ar: todos fingem que acreditam que a felicidade tomou conta da cidade. Os fatos importantes ficam esquecidos e o noticiário é só carnaval, é pupurina, é avenida, é sambódromo, é samba no pé, a Tijuca é campeã. Não, não há violência, o morro não está tomado pelos traficantes, as crianças não estão sendo violentadas e exploradas, as adolescentes não estão perdendo sua virgindade atrás daquele muro da avenida pra o carinha que dará a mínima pra ela. Não, essas adolescentes e outras já adultas não engravidaram irresponsavelmente, não, elas não contraíram nenhuma DST. Fome? Quem passa fome? É carnaval, foi Fátima Bernardes quem disse: que o Brasil é só alegria, que o Brasil está sendo visitado pelos gringos que vieram gastar seus dólares na prostituição vendida pela própria propaganda insana lá fora.
Mas hoje é quarta-feira de cinzas, dia de ir à missa e dizer a Deus: "Perdoai nossas dívidas..." e continuar fingindo e manipulando números para dar a falsa ilusão de que o índice da violência baixou, afinal este ano "O índice de furtos, na maioria dos casos cometidos contra turistas, teve a redução de 3,7% (860 registros em 2011 contra 893 do ano anterior) (Correio). Isto é, tudo continua igual, a tal alegria, a tal festa popular continua fomentando mais violência, mais miséria.
As cinzas na verdade não tem só conotação religiosa, ela traz a infeliz idéia de que ficamos sem nada, mais uma vez, que queimaram o senso moral, tentaram queimar nossa inteligência, queimaram vidas na ponta da faca do agressor cujo registro ficou só na delegacia local. Só restou cinzas. Cinzas de uma esperança que foi queimada no discurso da autoridade municipal que entregou nossa cidade ao tal Momo, rei da falsa alegria, alegria que só dura cinco dias, ou seis, ou oito.
Só restou cinzas, cinzas dos sonho da menina que virou mulher, do filho que ela abortou, cinzas do cara que experimentou a coca pela primeira vez de uma série de outras. Cinzas do assaltante que queria mudar, mas o Carnaval, o turista vacilão, o folião desapercebido lhe pareceu a oportunidade para mais um delito.
O que vem depois do carnaval? A dívida, municipal e do cidadão. Cartões de crédito estourados, economias que poderiam salvar os negócios voaram ao vento da ilusão da cerveja gelada e do samba da baiana bonita, do abadá de pano simples, mas de valor de diamante. Depois do carnaval vem a separação, o divórcio, o tapa na cara, a dor da traição. Vem as filas na mesa do gerente bancário com a finalidade de salvar o crédito que virou débito, e que débito! Sim, só restou cinzas, ela está estampada na cara dos foliões cansados,cara que denuncia a falta de esperança, de paz, da verdadeira alegria.
Deus salve-nos, salve-nos por seu Filho Jesus, cuja paz é eterna e não depende dos dias de carnaval. Aquele que nos dá descanso de nossa procura louca, ávida de felicidade (Mt. 11:28).

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